Jesus, certa vez em um monte, reuniu os seus discípulos e as suas discípulas para lhes ensinar. Jesus tinha uma forma surpreendente de ensinar as coisas; ele falava com muita convicção e autoridade. Por isso, quando se tinha notícia de que Jesus iria estar em algum lugar, muitas pessoas corriam para vê-lo e ouvi-lo. Além disso, a fama de Jesus não era apenas de sabedoria e convicção naquilo que ensinava. Jesus fazia muitos milagres e muitas pessoas que não tinham nenhum outro recurso, senão esperar um milagre, corriam na direção de Jesus; alguns tinham intenções nobres, outros, motivos profundamente egoístas. Lá estava a multidão cercando Jesus.
Naquela tarde Jesus resolveu dar algumas dicas para uma vida feliz. Os ensinos de Jesus eram muito duros e exigentes, mas naquele momento Ele tinha a atenção de todos, pois falava do caminho da felicidade. Todos olhavam com muita atenção, felicidade era algo que ninguém desprezava, sobretudo a multidão cheia de insatisfação pelos desejos não realizados; nada de trabalho, comida com precariedade, saúde ameaçada. Mas o homem sábio lá estava para falar do caminho para a felicidade. Ele usava uma expressão que aparecia nos escritos dos judeus: “Bem-aventurado ... Bem-aventurado... “
Jesus indicou vários caminhos para a felicidade: oito, talvez. Mas algo em especial chamou a atenção daquele homem de coração duro. Ele era mais um na enorme multidão que procurava receber de Jesus alguma dica que pudesse tornar a vida menos dura. Lá estava o homem sem nome; homem sem nome, mas com história; e que história! O homem tinha um coração duro como uma pedra. Era pobre, mas exageradamente orgulhoso. Talvez o orgulho de ter nascido homem e de teimar em suas convicções fossem as poucas coisas que ainda lhe conferiam alguma dignidade. Por isso teimava em ser arrogante. Pobre, mas sem solidariedade para com sua esposa, simplesmente por esta ser mulher; sabe como é, mulher é um ser inferior, criado por Deus, mas que só causou problemas à vida do homem, pensava, arrogantemente, o nosso homem de nariz em pé. Pobre, mas sem solidariedade para com os seus cinco filhos; sabe como é, crianças, tal como as mulheres, não sabem de nada; homem, sim, é que sabe das coisas, pensava ele em seu orgulho insistente e vazio!
Jesus chamou a atenção ao dizer que os humildes eram bem-aventurados. Por que Jesus teria dito aquilo? Aquele homem pensava que estava certo pelo menos em suas convicções interiores; jamais se permitira questionar o próprio orgulho. Mas o grande mestre Jesus havia dito que a humildade era uma das formas de se encontrar felicidade. Parecia que Jesus não havia passado horas e horas ensinando tantas outras coisas. Parecia que Jesus apenas tinha se dedicado a falar da humildade. Findou a tarde, o homem partiu para casa, mas as palavras de Jesus ainda ecoavam em sua mente: “Bem-aventurados os humildes ... Bem-aventurados os humildes ... Bem-aventurados os humildes ...” De noite se remexia em sua cama e ia sendo remoído pelas palavras de Jesus: “Bem-aventurados os humildes ... Bem-aventurados os humildes ... Bem-aventurados os humildes ...”
Amanhece e lá vai o homem para o trabalho; entra no barco e segue mar adentro em busca do alimento de sua família, mas as palavras de Jesus não lhe saem da mente: “Bem-aventurados os humildes ... Bem-aventurados os humildes ... Bem-aventurados os humildes ...” Jesus era sábio demais para estar errado. Mas se Jesus não estava equivocado, então era a sua forma de vida que estava totalmente errada. Pela primeira vez na vida considerou severamente a forma como tratava as pessoas. Sempre foi orgulhoso, o suficiente para jamais refletir sobre o próprio orgulho. Mas agora algo inédito acontecia; ele questionava o seu próprio orgulho. Indignava-se ao tentar entender o seu próprio orgulho; esmurrava a própria cabeça e se perguntava: “Orgulho de quê?”
Aquele homem conhecia muito bem a história de Jó, mas jamais a compreendera a fundo. Agora parecia entender o porquê do sofrimento de Jó. Talvez a história de Jó fosse a sua própria história; a grande diferença residia na questão financeira; Jó era rico e ele era pobre, mas de resto quase tudo era igual. Pelo menos Jó tinha do que se orgulhar, era rico; mas ele nem a riqueza de Jó tinha. No entanto era tão orgulhoso quanto Jó, que ousara questionar o merecimento do seu sofrimento com o dedo indicador apontado para o nariz de Deus. Pensara que talvez Deus tivesse permitido que Jó passasse por tantas tribulações para que se tornasse mais humilde. Afinal de contas, não teria o próprio Jó reconhecido que falara de coisas desconhecidas? Não teria Jó se retratado perante Deus? Sempre quis saber do quê Jó estava se retratando e agora parecia ter encontrado uma resposta; só podia pensar na arrogância de Jó; só podia pensar na sua própria arrogância. A tarde ia chegando e as palavras de Jesus ainda ecoavam na mente perturbada do homem: “Bem-aventurados os humildes ... Bem-aventurados os humildes ... Bem-aventurados os humildes ...”
É hora de voltar para casa, mas já não é o mesmo homem que volta para casa. Uma revolução estava começando na mente daquele homem. Uma revolução mais poderosa que uma bomba atômica; era uma revolução nos conceitos de vida daquele homem; uma revolução no seu comportamento estava prestes a se concretizar. Bastaria encontrar sua esposa e seus filhos para testar suas novas conclusões. Pela primeira vez podia admitir alguma sabedoria no sexo feminino e nas crianças. Seus relacionamentos estavam prestes a se transformar. Aquele homem voltara para casa, enfim, mais feliz. Descobrira que se pode ser feliz com pequenas coisas. Agora ele era livre para descobrir um mundo inteiro, pois a humildade começara a brotar em seu coração. Agora, talvez , pudesse aprender mais coisas. Um aprendizado, entretanto lhe fora o mais útil para a sua vida: “A humildade é a chave que abre a porta de uma vida saudável! “