terça-feira, 27 de fevereiro de 2007

Responsabilidades da fé cristã para com as questões ecológicas dos dias atuais

Assisti a um filme muito interessante chamado “O dia depois de amanhã”. A narrativa é cheia de detalhes, mas eu gostaria de destacar três cenas. A primeira mostra o presidente dos Estados Unidos se negando a assinar o protocolo de Kioto, pois este iria contra o interesse de muitos empresários de seus país, podendo tornar seu mandato inviável. A narrativa mostra uma série de catástrofes no mundo inteiro de conseqüências devastadoras, inclusive e especialmente para os habitantes do Hemisfério Norte, como mudança brusca de temperatura, chuva de granizo com pedras enormes, congelamento total de algumas regiões etc. A terceira, coberta de fina e bela ironia, mostra os norte-americanos fugindo para o Hemisfério Sul com o objetivo de se livrar de suas catástrofes climáticas.
Os fatos mais importantes da atual crise ecológica que o mundo contemporâneo enfrenta estão tematizados na referida produção cinematográfica. Vivemos à beira da ameaça de um colapso do planeta Terra e não somos ignorantes do fato. O problema é que passar a cuidar de nossa casa comum teria implicações muito caras aos donos de grandes corporações e a países submersos em uma visão capitalista predatória. No filme o presidente americano não se nega a assinar um acordo de diminuição de poluentes por não perceber o quanto estes são nocivos ao nosso planeta, mas porque eles ferem aos interesses dos poderosos que patrocinaram sua campanha.
Embora a narrativa fílmica seja propriamente uma hipérbole, os efeitos do devastador modo como tratamos nossa habitação terrena já podem ser sentidos no mundo inteiro. Hoje enfrentamos um comprovado aumento global de temperatura, sabemos que há um rombo na cama de ozônio, observamos várias espécies vegetais e animais serem devastadas ou em vias de extinção e contemplamos recursos hídricos que já se encontram à beira de um racionamento. A questão é que tratamos a natureza como se ela fosse portadora de recursos infinitos, quando sabemos dos limites daquilo que ela pode nos oferecer.
Problemas globais exigem soluções e atitudes abrangentes, mas os países mais ricos do mundo não têm demonstrado muito interesse em contribuir para que as coisas mudem. Vivemos para os dias de hoje e parecemos não nos importar se os nossos netos vão poder, ao menos, sobreviver. Estamos afetados pela doença do “amanhafobia”, mas não sabemos bem ao certo o que o futuro nos prepara. Como na ironia do nosso relato inicial, talvez chegue o dia em que os norte-americanos tenham que implorar para que os seus irmãos latinos os recebam em seus países, embora estes constantemente sejam rejeitados dos seus paraísos da metade superior do planeta.
Se todos os fatos mencionados acima implicam em questões de vida e morte, é inquestionável a responsabilidade que a fé cristã precisa assumir. Não existe nenhuma outra religião no mundo inteiro que se identifique mais com a vida de uma forma geral do que o cristianismo. Cremos em um Pai que é criador de todas as coisas que agora estão sendo destruídas por seres humanos ambiciosos. Professamos fé em um Filho que é a revelação encarnada do Criador e manifesto para redimir pessoas que podem morrer antes mesmo de ouvir a sua mensagem libertadora. Também amamos o Espírito da Vida que habita na criação sem com ela se confundir.
Sabemos que vivemos em uma situação de crise ecológica. Também temos conhecimento de que cristianismo deveria ser o primeiro a ser posicionar contra essa tendência destruidora. Apesar disso, os seguidores de Jesus têm se omitido de assumir posicionamentos radicais e claros. Talvez porque ignorem as exatas propoções da catástrofe que nos aguarda no futuro. Ou, quem sabe, ainda não tenham compreendido a imensidão do amor de Deus para com a natureza e o gênero humano. O que me parece mesmo é que os crentes no Filho de Deus estão muito preocupados com questões que consideram mais espirituais que o destino do planeta, como orar em secreto, cantar o céu vindouro e apelar para que almas aceitem a Jesus como salvador.
Resta-nos, enfim, fazer duas coisas: 1) proclamar para o mundo todo e em todas as circunstâncias, com paixão e urgência, as proporções da atual crise do nosso planeta e 2) refletir com mais intensidade e clareza sobre o assunto em ambientes eclesiais e em escolas teológicas. Claro que a reflexão não substitui ações concretas. Nesse sentido são fundamentais as denúncias, a exemplo do que faz o filme “O dia depois de amanhã”, bem como o empenho individual e coletivo em poupar o mundo da devastação, como o fazem instituições não governamentais, cristãs ou não cristãs, que lutam pela preservação de florestas, matas, golfinhos, baleias, tartarugas marinhas e, sobretudo, seres humanos. Penso que assim estaremos assumindo a nossa responsabilidade cristã diante dos acontecimentos e agradando ao coração do nosso Criador!